Insuficientes 24 horas

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Primeiro dia do mês de Outubro, esse mês importante de nosso calendário onde prestigiamos a Padroeira, as crianças e os professores.

Levantei cedo pra sair de casa a tempo de chegar nas “Quebradas” às 11. Com minha pré aula impressa em mãos, vinha lendo e vendo o mapa da violência no Brasil e na cidade do Rio de janeiro.  “Meninos do Rio”, era onde eu me achava no texto quando pelo rádio o locutor começava a prevêr conflitos na cinelândia devido a ocupação dos professores. Por um momento juro que meu cérebro tentou conectar o que eu ouvia e o que eu lia, como se o conteúdo do texto fosse um parente bem próximo do que eu ouvia no rádio, mas, não sei por que o pensamento não foi adiante. Olhei no relógio, e vi que o tempo não favorecia uma reflexão.

Cheguei no MAR* a tempo de me concentrar naquilo que seria meu papel na cena que ensaiávamos. Heleny Guariba, amiga de Augusto Boal, quando ambos se encontravam presos no Dops no período da ditadura. Tive que tentar senti-la pra poder reproduzir sua voz, num contexto que me fere a alma no mais profundo, prisão, cárcere. Esse lugar que nos tira a máxima de nossa identidade, nossa humanidade. (A quem nunca esteve em um presídeo, recomendo uma visita, mas se permita a nunca mais ser o mesmo). Enquanto me didicava ao texto no ensaio, mais uma vez meu cérebro tentou fazer outra conexão: A pré aula com o diagnóstico da violência, os meninos, os jovens do texto, o locutor anunciando um possível conflito, professores, e ali, Heleny Guariba, presa e morta. Senti minha alma se esticar como um elástico. Olhei o relógio, tinhamos que parar, a aula já ia começar. Guardei em algum lugar de mim as conexões que meu cérebro fazia e que minhas emoções insistiam em resistir. Saí, comi alguma coisa que não me lembro o quê. _ A aula começou (alguém disse).

Relatório quantitavo, detalhado e explícito de maneira singular por Silvia Ramos. Enquanto ela falava e mostrava minha realidade eu sentia como se o dia me cuspisse verdades de uma vida inteira. Não era só de homens, negros, pobres e policiais que sua pesquisa falava, era de mim. Aos poucos iam chegando na sala os retardatários, os atrasados, mas naquele primeiro de Outrubro de ontem todos nós éramos retardatários, de alguma maneira…todos nós.

Vi entrar uma colega “quebradeira” muito tempo depois da aula já haver começado. Professora, ela vinha da Cinelândia. Mal sabiamos que estávamos a alguns minutos de uma das maiores vergonhas de nossa época.

Descemos pro Museu, onde a exposição “Vazio de nós” nos aguardava. Passei por uma curva escura e cheguei exatamente onde meu relógio por vezes me tirou naquele dia. As imagens me levaram até as conexões que meu cérebro tecia em mim. E por ter permitido que meu relógio as comprimisse em alguma gaveta de minha alma eu vi um pouco de mim em tudo ali. Sim, eu me vi na mulher pedaço de carne, eu me vi na senhora que recolhia ossos, eu me vi na senhora bem vestida com seu colar de pérolas, eu me vi naquele menino tirando fotos, eu me vi naqueles porcos, eu me vi naquelas celas, eu me vi com aquela tocha na mão, eu me vi sobre o cavalo vermelho. E me vejo ali, cada vez que acumulo em gavetas a vergonha de meu semelhante, que também é a minha. Me vejo ali cada vez que olho o relógio e descubro que no pouco tempo que tenho, só me resta viver de maneira “organizada”. Expremer as feridas compete com essa organização, compete com a “ordem”, compete com meu cotidiano de tarefas tão minhas.

Saio do MAR*, rumo ao sarau num beco cortado por uma sarjeta. Vozes imponentes narrando suas almas, e sobre nossas cabeças, os helicópteros. Nessas alturas já soubemos de tudo. Professores foram arrastados, humilhados, e mesmo ali tentando interagir com os poemas, nossos olhares refletiam nossa vergonha, havia uma tristeza, uma irritação no ar. Parecia ser o lugar, as cadeiras, o formato. Não, arrumamos as cadeiras, experimentamos uma cachaça mas nada nos permitia conforto.

Olhei no relógio, hora de ir pra casa. Depois de horas sem fim, consegui entrar em um ônibus. Na minha cabeça eu ainda ouvia a voz de Silvia Ramos, o locutor do rádio, Heleny Guariba. Ainda me vinham as imagens, os gráficos da morte, da violência, o homem de fucinheira, as mãos por fora das grades, e sentada na poltrona quando eu já ia me permitir um choro, uma senhora me chama e me diz:

_ É filha, a vida é assim, nós que não temos nada com isso temos que pagar. Esse povo arruma confusão na rua e nós é que ficamos sem ônibus.

Eu fiquei muda, e percorri minha viagem de volta pra casa, pensando nessa mulher. Em quantas gavetas ela teve que manter fechadas. Quanto choro ela deve ter embargado e engolido, pra chegar naquela idade e estar tão distante de sua própria vida. Talvez seus motivos sejam parecidos com os meus, talvez não. Mas decidi ontem gerir meu tempo e minha vida de maneira que eu me permita ir além do que um dia me oferece. Deixar emergir o que está no meu profundo, as feridas e as chagas do meu próximo, tendo-as como tão minhas. Mesmo sabendo que sempre me restará pouco tempo e apesar das insuficientes 24 horas

*MAR (Museu de arte do Rio)

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