O carimbo do sentido

carimboHoje enquanto trabalhava entre uma atividade e outra minha mente se debruçou sobre o verdadeiro sentido de quem sou e o que faço.

Evito dirigir o que escrevo à primeira pessoa, tentando promover maior acessibilidade aos amigos que resolvem ler essas bobagens, e assim facilitar a identificação, mas, hoje isso é inevitável.

Minha mente é reflexiva por natureza, e isso não me custa muito tempo de meditação ou transcendência, ao contrário. E em meu cenário mental, várias pessoas que tive o privilégio de conhecer ao longo  da estrada da vida, um lavrador, uma dona de casa,  um professor, um violeiro, um viajante, um morador de rua, um pianista, um cartunista, um escritor, um ambulante, um cantor, uma vendedora, um artesão, um publicitário, uma cuidadora, um designer, um João, um José, uma Maria…todos eles me inspiraram essa reflexão hoje. Mas, ainda houve espaço pro mito. Claro, esse último nunca pode faltar. Não na minha mente. Me lembrei de Sísifo. O Filho do vento da narrativa mítica da Grécia Antiga. Sísifo, castigado por dedurar Zeus, foi punido de maneira exemplar: rolar diariamente uma pedra montanha acima até o topo. Ao chegar ao topo, o peso e o cansaço promovidos pela fadiga fariam a pedra rolar novamente até o chão e no outro dia ele deveria começar tudo novamente e assim para todo o sempre. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. Um tormento cujo o fim ele nunca conhecerá. Mito, cuja a maior tragédia é a consciência de seu herói.

Pensei que o destino de muitos não é menos absurdo, mas, é trágico apenas nos momentos em que ele se torna consciente. São nos momentos conscientes que nos deparamos com nossa condição miserável e ardemos por sentido. Albert  Camus compara o absurdo da vida do homem com a situação de Sísifo, mas eu hoje, não me debrucei sobre a filosofia de Camus, me ative ao meu coração e minha mente e se ando “buscando” ou “dando” sentido a quem eu sou e ao que faço.

Impossível não vaguear pela filosofia Kantiana sobre isso, mas, contrariando seus pensamentos interligo propósito e sentido em minha existência e não me sinto subjulgada pelos deuses ou por Deus por isso. Sentido pra mim é como um carimbo. Uma identidade que só eu posso dar ao que sou e que faço. Não representa produção, não pode ser calculado ou comparado. Não é lucro nem bônus. Não é mérito nem prêmio de merecimento. É a originalidade que não exige exclusividade. É minha marca, que mesmo sem me tornar maior ou melhor, identifica o valor que eu dou ao que sou e faço. É o que tornará nobre o que é simples, grande, mesmo que sem tamanho, eterno, ainda que por um breve momento, devido ao propósito. Quem lê com os óculos embaçados por uma auto estima comprometida ou com um amor próprio distorcido vai me considerar altiva.

Quero carimbar meus feitos. Quero nomear o que posso co-criar. Conheci um lavrador no interior de Minas, e sempre que ia em sua casa eu quase podia ver que tudo era carimbado por ele. Tinha a marca exata do sentido que ele dava a tudo o que fazia.  Vi o mesmo no olhar de um pianista, e enquanto ele tocava, sua existência carimbava minha vida, tamanho sentido e propósito de sua presença. Já vi muito através de tantos, mas também vejo a ausência.  Sentido não se busca, não se procura. Ele é dado a mim, por mim mesma. Minha existência, seu valor e o que flui dessa sinergia incrível envolvida por um propósito inicial. Cada um, de maneira única. Hoje eu carimbei pequenas coisas, umas diretamente outras indiretamente, cada coisa tem seu nome, seu valor e seu propósito. Não quero o destino de Sísifo. Acredito no perdão gratuito, que me permite, em consciência escrever meu destino. Não desconsidero o trágico, tão pouco o absurdo, mas acredito na vida e no sentido dela, como resultado disso, sigo carimbando tudo o que faço.

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