E por falar em justiça, a clemência!

Justiça! Eis o grito que ecoa pelas ruas, pelos becos e vielas, nas praças, escrito em cartaz, nos muros e camisetas. Conectado à criminalidade, impunidade, culpa e inocência, o que fere e o que é ferido. O que foi traído, o que foi lesado. O que foi roubado, o que foi violentado. O que foi abatido e o que foi morto. A justiça que ecoa abraça a vítima e fere o culpado, ou pelo menos assim se espera. Que o culpado pague, e assim se faz JUSTIÇA. É nesse ambiente que ressurge a  CLEMÊNCIA. Esta última, a grande besta dos injustiçados. Conceito que tem ganhado força através dos movimentos mundo afora que visam estender a mesma justiça aos “criminosos”. Tema difícil de discutir, afinal, a justiça requerida de nossa sociedade (não apenas a atual) deve ser aquela que pune, que fere, que condena, por isso a CLEMÊNCIA se faz oportuna, pois vem ao encontro de um dos maiores problemas com os quais a sociedade moderna vive a braços. Sêneca, pensador romano, abordava, há vinte séculos atrás, o pululante tema da criminalidade. E em seu livro “A Clemência” o enfoque do texto está direcionado para a virtude moral da clemência, uma vez que supõe o delito. Além de demonstrar  os critérios para aplicação da clemência que beneficia, de certo modo, o criminoso, Sêneca exalta o valor dessa complacência moderada que difere da misericórdia “humana” (acrescento), cuja aplicação é mais ampla e mais generosa. Apesar dessa oposição, ser clemente equivale a galgar o altiplano da equidade, sem pender para a imensidão da generosidade misericordiosa.

Seria também oportuno rever os critérios com que definimos o criminoso, os adjetivos que empregamos quando banhados por toda nossa justiça própria que nos assiste no cotidiano ante aos noticiários e aos acontecimentos fatídicos que cercam nossa sociedade, todos os dias, a cada instante.

As mazelas de nossos dias tem roubado de nós a clemência. Vitimizados por toda sorte de acontecimentos, sentimo-nos cada vez mais lesados e com isso cada vez mais desprovidos de compaixão. Compaixão, apenas para aqueles que consagramos como vítimas, e “justiça” ao culpado. E assim nosso senso de justiça tem se tornado ao longo do tempo mais punitiva e bem menos regenerativa.

Aos que a muito, ou nunca estiveram em um presídio, recomendo uma visita. A um conhecido, um parente distante ou próximo, receio dizer-te que te fará grande bem. (Digo por experiência própria)

A justiça convive com a clemência, caso não, não haverá de ser justa.

Este meu rabisco é um convite ao diálogo sobre a pessoa que se encontra criminoso. Aquele que chamamos vagabundo, entre tantos variados adjetivos que engordam nosso senso de justiça.

E quanto à Clemência, abro aqui espaço a ela, que ressurja, que emerja, que pulse, que vibre e faça ecoar um novo grito. Um justo grito por justiça. Deixo pra reflexão um parágrafo do livro que citei no início, este que entre outros tem me inspirado a repensar meu pressuposto de justiça:

“… A meu ver, isso tudo é briga por palavras. em cima do tema, há acordo. O sábio aplicará muitos castigos, mas libertará aqueles condenados que são recuperáveis. Assim ele imita o lavrador que não cultiva árvores já retas e altas, mas cuida de arribar a uma torta e outra torcida. A outra ele poda para que os ramos não lhe embaracem o crescimento. A outras, por problemas de terreno, ele abandona e outras impedidos pela sombra da companheira, ele desbasta e abre espaço para o alto. Assim o sábio saberá ver qual o melhor para cada um e qual o método para recuperar coração retorcido.”

Meu nível de justiça própria e meu paradigma sobre a mesma, me oferecerá condições de receptar esse pensamento, ou de abortá-lo por considerá-lo ofensivo ao meu senso de justiça.

Quanto a mim, eu continuo acreditando que a clemência é tão emergente quanto a própria justiça, já que estas duas se opõe diretamente a qualquer tipo de crueldade.

Inspiração: A Clemência – Sêneca (tradução Luiz Ferracine)

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