Torna-te quem tu és!

Esta máxima de Nietzsche, umas das que mais me intriga e espanta, é também a que mais me acalma e vivifica.

Me intriga pela profundidade da síntese. Tão breve e tão elaborada. Tão surpreendente e tão misteriosa. Me espanta pela afronta carregada de juízo que ao mesmo tempo em que agride convida. E tal convite me acalma pela proposta que abriga o “torna-te”.

“Tornar” é voltar, repetir, fazer de novo, transformar, vir a ser, regressar, revir, reconsiderar, dar tornas, enfim, é caminhar…prosseguir…

Vale observar que todo esse retorno nos remete a um ponto, afinal, repetir o quê? Vir a ser, o quê? Regressar, a quê?

Pra mim, é ao Ponto original, o formato legítimo do ser.

Pra mim (em particular) que vejo perguntas em tudo, o “torna-te” depende diretamente do “quem tu és” ou do conhecimento dele. Pois como tornar a ser o que não se sabe que é? Como pois vir a ser o que ainda é desconhecido, ou conhecido em partes.

Aí já vem um milhão de pensamentos em minha mente quanto ao que interpretei como pergunta. “Quem tu és”?. Uma projeção? Uma configuração? Uma cópia do que seria? Se for, logo o “torna-te” está comprometido.

Não tenho a pretensão de inverter ou converter a máxima, mas julgo-me apta a   acrescentar, não na síntese, mas na pergunta em subliminar, que faz-se necessária a descoberta do “ser” original. O “ser em estado puro” tal qual foi criado  “para ser” e dali regressar, revir, dar tornas, transformar-se no “quem”. Sem a descoberta corre-se o risco de “tornar-te” a ser não “quem tu és” verdadeiramente, mas ao que gostaria de ser, ou julga-te ser, e aí já não tornar-te quem tu és, e sim, uma sombra ou fantasia…

A máxima opõe-se aos dias atuais o que a torna ainda mais emergente e contemporânea, e traz consigo questões oportunas e desafiadoras. Ao mesmo tempo é inclusiva no sentido de estender-se a todos. Também propõe descobertas atemporais que justificam e dão sentido.

Afinal, é mais fácil tornar a ser o que já se sabe que é!

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