A criança e a erotização precoce.

                                                                                                                                                                          Falar de sexualidade é falar do mundo, do que nos constitui pessoa. Impossível compreende-la sem divagar pela historia com olhar apurado, antropológico – cultural, arte, filosofia, por fim e sobretudo educação. Historia não apenas estudada, mas historias contadas desde o corpo da mãe de maneira particularmente erotizada, nada precoce: necessária. Sexualidade e erotismo caminham de mãos dadas mas não o tempo todo, e a erotização precoce em seu sentido pejorativo é algo tóxico.

Existem várias portas por onde entrar com esse tema, uma delas é a que foi aberta por Freud, que em termos de ideia foi múltiplo. Ele bem no começo, descreveu o aparelho psíquico como uma estrutura que tem uma função maior: livrar-se da energia que recebe. Em outras palavras, ficar em paz.

Freud nunca abandonou inteiramente essa ideia (Freud, 1895), teve muitas outras com formas e portas específicas, por exemplo, fundamentar o funcionamento psíquico calcado no desejo, sendo este de natureza sexual. Mas essa é uma outra porta que não vou abrir aqui, porém sexualidade para Freud, sempre foi um conceito amplo e inclui cuidados de uma maneira geral.

A libido, que é uma energia de natureza sexual não começa pronta, madura ou genital, e nem termina. Foi assim que Freud desenvolveu sua teoria da libido, de um prazer de longa viagem, ao longo dos primeiros anos de vida. Parece estar tudo na mente, mas não está, não somente. Bem como outros autores que aprofundaram-se nas letras que Freud já havia dito: O AMBIENTE É FUNDAMENTAL AO DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO.

Somos seres com necessidade de digerir, metabolizar, elaborar. Necessitamos de tempo para encontrar nosso espaço, e como já fomos criança, sabemos que somos tatuados na infância. E é nessa mesma infância que  quando expostos a conteúdos ou figuras de erotismo pejorativo que nos são não – digeríveis, não -metabolizáveis, não- elaboráveis que somos intoxicados.

Especialmente hoje, em um tempo de pouca disposição para o próximo, e pouco tempo pra tudo. Pois a vivência do erotismo é como todas as outras que precisam ser elaboradas, e o tempo, esse tempo é confiscado. Não é pois precipitado dizer que a infância vem sendo roubada em variados aspectos e em especial em sua sexualidade pois esta vem sendo erotizada precocemente todos os dias, cercada por todos os lados.

Crianças se atravessam, ameaçam, demandam tempo para serem cuidadas e dão pouco em troca. Nos primeiros anos de vida chegam a depender até psiquicamente dos pais para sobreviver. Elas vão crescendo e suas necessidades vão apenas diminuindo sem deixar de existir, e em partes, é pra sempre.  Não é dramático dizer que a erotização precoce (a pejorativa) comece aí, a partir do momento que nos falte o tempo que elas necessitam, e esse cuidado que elas demandam se torna erotização em estado puro, logo precoce. Sem proteção, sem mediação, sem arte, sem elaboração.

Num mundo altamente quantitativo, cabe ressaltar que nada pode ocupar o lugar do que mais interessa: qualidade, afeto, olhar, cuidado e o erotismo segundo Freud, Winnicott e das crianças.

Antes mesmo do sexo “em si” conceitual e legítimo, ele já é vendido, anunciado, cantado, escrito e nessa diversidade de linguagens explicitamente exposto, e que não pode ser digerido, nem metabolizado nem elaborado. Me lembro como se fosse hoje, quando ainda criança no conservatório de música, fui premiada por participar de um karaokê, saí de lá em polvorosa a caminho da discoteca (era como chamávamos as lojas de discos) para comprar meu primeiro disco da Xuxa. Cheguei em casa histérica para colocá-lo na radiola e meu pai ao pegar a capa do vinil ficou indignado em ver na capa a Xuxa (meu ídolo na época) debruçada com uma blusa transparente com os peitos à mostra, um batom vermelho e uma “cara de cama”. Ali meu pai  percebeu que esse era o novo protótipo de uma “cuidadora” apresentada pela mídia nos meados de 80: Saia curta, peitos proeminentes, muita maquiagem, erotizada precocemente. Pejorativamente. Mas isso historicamente não era novo, afinal daí nasceu a psicanálise infantil (Freud, 1909; Gultfreind, 2008). A historia em muito retrata crianças sendo desrespeitadas em suas necessidades e em seus tempos.

Entre essa e outras portas que abri aqui, e tantas outras que podemos abrir na historia da criação do homem e mulher (esta pois a principal), minha petição é que HAJA MAIS CASA! Não apenas parede e portas, que haja um lar. E que nele haja tempo, para o cuidado, para a educação que afasta a erotização precoce pejorativa, e TEMPO com mediação, largo tempo (ele de novo) para transformar aquilo que, de certa maneira, já era muito sexual, mas ainda não adulto. Que nessa CASA haja arte, haja tempo (de novo) para brincadeiras, dramatizações. Que se banhem de todas as leituras de todas as historias, dos contos, que narrem, que contem, que dancem, que se amem, se beijem, muitos beijos de pai, de mãe. Que se ame. E amor que se preza respeita espaço e tempo (mais uma vez) e tudo do outro. Sabe que não é pra já. Que pode esperar. Não é precoce nem tardio.

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