16
jun
11

CONSTRUÇÃO DA PAZ

Para vislumbrar alguma luz sobre os descompassos violentos experimentados pela humanidade e os compassos pacíficos almejados por ela, temos que partir dessa ambiguidade fundamental: a realidade. Por um lado, ela vem marcada por conflitos e, por outro, é perpassada por ordem e paz. Nenhum desses lados consegue erradicar o outro. Mesclam-se e se mantêm num equilíbrio difícil e dinâmico. A arte consiste em manter a tensão buscando a convergência de energias que permitem o surgimento da paz, fruto de manifestações individuais e coletivas minimamente justas, includentes e sadias. A paz resulta, portanto, da administração dos conflitos, usando meios não conflitivos. Na construção da paz, os interesses coletivos devem se sobrepor aos individuais, a multiculturalidade sobre o etnocentrismo, a perspectiva global sobre a local. Há violência no mundo porque carrego violência dentro de mim na forma de raiva, inveja e ódio que devem ser sempre contidos. A explicação da agressividade tem desafiado os pensadores mais argutos. Sigmund Freud parte da constatação de que existem duas pulsões básicas: uma que afirma e exalta a vida (Eros) e outra que tensiona para a morte (Thánatos) – e seus derivados psicológicos como os ódios e as exclusões. Para Freud, a agressividade surge quando o instinto de morte é ativado por alguma ameaça externa. Alguém pode ameaçar o outro e querer tirar-lhe a vida. Então o ameaçado se antecipa e passa a agredir e eventualmente a eliminar o ameaçador. Outro pensador contemporâneo, René Girard, afirma que a agressividade provém da permanente rivalidade existente entre os seres humanos (chamada por ele de desejo mimético). Essa rivalidade cria permanentes tensões e elabora sinistras cumplicidades. Ao concentrar em alguém toda a maldade e toda a ameaça, a sociedade torna-o um bode expiatório. Todos se unem contra ele para afastá-lo. Essa união instaura uma paz momentânea entre todos os contendores. Desfeita esta paz, inventa-se um novo bode expiatório (os terroristas, os traficantes etc.) e novamente se cria a união de todos contra ele e se refaz a paz perdida.
Os antropólogos nos ajudaram também a entender a agressividade.                    Somos portadores de inteligência e de energias interiores orientadas para a generosidade, a colaboração e a benevolência. E, ao mesmo tempo, somos portadores de demência, de excesso, de pulsões de morte. Somos seres trágicos porque surgimos como coexistência dos opostos.
Dada essa contradição, como construir a paz?                                                                    Ela só triunfa na medida em que as pessoas e as coletividades se dispuserem a cultivar a cooperação, a solidariedade e o amor. A cultura da paz depende da predominância dessas positividades e da vigilância que as pessoas e as instituições mantiverem sobre a outra dimensão – a da rivalidade, do egoísmo e da exclusão.
Dentro deste propósito, deseja-se um mundo menos cão e mais são para se viver em paz


0 Respostas para “CONSTRUÇÃO DA PAZ”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.