11
Jun
09

O que o cego vê…

cegueira_blindfoldA alguns meses assisti o filme ”Ensaio sobre a cegueira”, mas só agora assistindo-o de novo, pude pensar um pouco sobre o assunto numa totalidade. A primeira vez que assisti fiquei presa apenas ao impacto das imagens,atuação dos atores, o cenário e fotografia do filme, talvez por isso não consegui me aprofundar na idéia do “cabeção” do Saramago. Resumindo minha reflexão…eu me lembrei de um pensamento da Hannah Arendt:  “A  época moderna, com sua crescente alienação do mundo conduziu a uma situação em que o homem onde quer que vá, encontra apenas a si mesmo.” Meu segundo olhar sobre o filme me trouxe essa mensagem, que o homem até quando literalmente cego, só enxerga a si mesmo, suas necessidades, seus desejos e prazeres e tudo o que o cerca deve render-se a ele.

 A humanidade se encontra em estado de relativa pobreza, pois mesmo com tanta coisa acontecendo todos os dias, com tanta coisa na natureza pra se ver, o que faz o ser humano olhar apenas para si mesmo?                   Em sua volta, há um universo rico em estímulos e oportunidades, despertados pelos fenômenos da natureza, pelas inúmeras raças em seus diferentes coloridos e texturas, e outros indivíduos, que trazem consigo suas histórias e esperanças. Tudo fica apagado, submerso em um mundo cheio de objetos, propaganda, tecnologia, embalagens e ruídos, que vendem também a ilusão de felicidade quando se adquire algum bem ou serviço. Pensei muito nisso tudo, em nossa época, nossa geração, nossos valores…

“Se puder olhar, veja. Se puder ver, repare”, recomenda Saramago, na abertura do livro (que virou filme) Ensaio sobre a cegueira. Nos nossos dias que são “hoje”  é necessário enxergar e não apenas ver, pois ver, qualquer cego hoje pode.

22
Abr
09

Liberdade…

pardalzim

Num mundo “nem tão jovem assim”, ainda ecoa no ar o grito pela liberdade…Num mundo onde nunca se foi tão “livre”, onde nunca antes se obteve tanto tempo pra se gastar consigo mesmo, onde nunca houveram tantas respostas prontas, nem tão pouco receitas de sucesso e prazer… Penso muito em tudo isso, no vazio e no anseio dessa geração por algo que os preencha onde uma forte sede de sentido tem conduzido tantos ao desespero. Penso nessa geração que tudo tem nas mãos e nada tem a ser conquistado. Poucos lugares ainda inexplorados, poucos espaços nunca ocupados, enfim, tudo aí, nas mãos. Direitos conquistados, leis implantadas, revisadas, reajustadas, nada a ser descoberto, muito ainda a ser apenas copiado…É essa mesma geração que se vê depressiva em busca de auto ajuda diária como o pão quentinho da padaria, de todo dia…Um mundo composto por indivíduos tão centrados em si mesmos que numa horrenda contradição se esqueceram de si mesmos e vivem em busca de algo que ainda não tenham experimentado, e assim têm na boca o amargo gosto do “ainda quero” e não apenas do “quero mais”… Um dia em um de meus pensamentos pensei: Ai de mim, no dia em que desejar ser mais do que nasci pra ser, nesse dia terei perdido meu achado meu precioso, a simplicidade…E que ainda haja tempo pra nós!

14
Out
08

A Bunda do Brasil ou o Brasil da Bunda???

 

Das tantas riquezas tupiniquins muitas vingaram, o Pau Brasil, (adoçando a vida da metrópole lusitana e amargando a dos escravos), o café durante anos, a borracha, o ouro em Minas…mas a bunda (reconhecida por muitos como “riqueza” nacional) é a única que ultrapassou os tempos e tem reinado até hoje. Na verdade não sei afirmar se o imperador Dom Pedro I ”ficou” por aqui por puro patriotismo e pelas oito mil assinaturas, ou se “ficou” mesmo por causa das bundas das cabrochas que viu por aqui. Foi no período colonial que começaram descer as bundas, ou melhor, as negras. O cotidiano dessas negras nas fazendas do Brasil se resumia nessa dinâmica: A cana que a negra amargava com seu trabalho adoçaria o café do senhozinho que comeria sua bunda. 

Nos anos 70 muitas bundas deixaram as praias ensolaradas e desceram os escuros porões da ditadura. De lá pra cá algumas coisas mudaram na república, mas as bundas, homéricas, ampliam a cada dia o seu império. É impossível não ver uma na banca de jornal, nas revistas, na tv em novelas ou comerciais…é bunda pra todo lado. Até Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre ela:

A bunda, que engraçada, está sempre sorrindo, nunca é trágica. “Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se.” “Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz, na carícia de ser e balançar esferas harmoniosas sobre o caos.”

Bom, não é necessário comentar o poema, ele basta-se. A verdade é que elas ocuparam tudo por aqui. Porém o grande salto da bunda foi nos anos 90 nas letras das músicas (aff), haja bunda pra tanta música, ou tanta música pra tanta bunda, ou melhor, haja lixo pra tanta bunda ou tanta bunda pra tanto lixo (ai, chego a me confundir). Pra finalizar, sabe-se mais ou menos o início dessa “bundarola”, mas ainda não sabemos como ou quando isso vai parar, ou se vai. O que a gente faz em relação a isso? Boa pergunta. Acho que a gente nem mexe a bunda…

30
Set
08

Deus morreu???

(…”Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje! – Friedrich Nietzsche, . A Gaia Ciência)
Eis uma das declarações mais mal interpretadas da historia…Mas afinal o que Nietzsche quis dizer com tal declaração. Bom existem muitas interpretações, mas analisando bem a obra do filosofo e o contexto historico em que ele estava inserido dá pra fazer algumas observações relevantes e até bem significativas até nos dias de hoje. Se olharmos a filosofia de Nietzsche, observamos que ela serve para julgar a vida. Ele entre tantas coisas foi um crítico ativo do fanatismo e da tirania da fé, pois era e ainda é em nome da fé que muitos tem mandado matar em nome de Deus. Matar em seus vários sentidos, seja morte física, emocional ou intelectual. em nome de Deus (… Acredito hoje que estou agindo de acordo com o Criador Todo-Poderoso. Ao repelir os Judeus estou lutando pelo trabalho do Senhor. – Adolph Hitler, Discurso, Reichstag, 1936).  Foi pela fé que constituimos um dos mais miseráveis capítulos da historia humana, seja em troca de promessas ao paraiso, ou em ameaças de inferno. Sinceramente me pergunto. O Deus da bíblia ainda vive em nossos corações? SErá que realmente temos o matado, apagado sua verdadeira historia de nossa cultura, nossa arte, nossa literatura, nossa sociedade, educação, saúde, política, entretenimento, nossa vida??? Daí, em seguida, Nietzsche escreve: “O reino dos céus é um estado do co-ração, e não algo capaz de descer sobre a terra, ou que venha depois da morte. O reino de Deus não é alguma coisa pela qual se possa esperar. Ele não tem ontem, nem amanhã, não vem em mil anos – é uma experiência íntima do coração: está em toda parte e em parte nenhuma”.  Fiquemos com essa última de Nietzsche, que atropela nossos pressupostos, arrebenta nosso fatalismo religioso que ainda aguarda um reino que virá pra resolver nossos problemas e os de nossa sociedade. Que ainda aguarda um salvador que virá, ou uma pomba que ainda há de descer. De certo talvez milhões de pessoas tenham matado o verdadeiro Deus em sua visão míope e parcial da vida e do próprio Deus.

28
Set
08

“Re ligare”

Re ligare, religião (religação com o divino). A idéia original talvez tenha sido boa, algo que conduzisse os pobres humanos ao Ser superior. Ao longo da historia isso tem sido discutido desde em rodas de pessoas comuns como entre os filósofos, estudiosos e cientistas que buscam compreender os fundamentos da religião, suas verdades mentiras e sentido. Uns morreram ao declarar abertamente a podridão por trás da religião, outros estabeleceram impérios e ainda ostentam nomes imponentes de homens e mulheres que usufruiram dos poderes da religião, enfim, “tem de tudo nesse angu”. Segundo Karl Marx em uma de suas máximas mais repetitivas, “é o ópio do povo”. Aqui se você observar, Marx não diz que a religião é o narcótico, o entorpecente do povo, mas sim que é o ópio, um narcótico específico. Dizer que a religião é uma droga que alivia a dor nos dias de hoje ainda é chocante, imagine então nos dias de Karl Marx. Porém eu acredito que ele foi além do que simplesmente condenar a religião; o que ele faz aqui é uma crítica aberta sobre  a condição de uma sociedade, que levaria as pessoas a um entorpecimento. Segundo ele, a religião reflete o que falta na sociedade, uma idealização das aspirações do povo que não podem ser satisfeitas de imediato. Mas ele ainda vai além, alegando que a religião não é apenas uma supertição ou uma ilusão, mas que ela tem uma função social, distrair os oprimidos da realidade de sua opressão. Por isso o “ópio” especificamente. (Ela alivia sua dor, mas ao mesmo tempo o torna indolente, nublando sua percepção da realidade e tirando-lhe sua vontade de mudar). Na verdade ele queria que as pessoas da época abrissem os olhos pra dura realidade do capitalismo (os burgueses do século dezenove). Hoje a religião (digo no geral), anda de braços dados com o capitalismo, é sua aliada direta. Ao contrário do século dezenove ela não serve para “distrair” as pessoas quanto às suas auto realizações, pelo contrário, hoje ela serve como uma “Re ligare” com a prosperidade, com o sucesso, com a “vitória” emocional e financeira, etc, etc…

26
Set
08

“…É Primavera…”

O inverno passou, o outono também, a sequidão do verão também se foi, chegou a primavera. E ela vem como uma nova estação em minha vida, com a diferença apenas de que “nem tudo são flores”, mas há o colorido e o perfume de todas elas. Fiquei um tempo sem postar devido ao parto, mas voltei agora com mais idéias pra compartilhar, novos conceitos, etc. A maternidade me devolveu muita coisa boa, e estou experimentando um tempo único. Uma coisa extremamente boa é a falta de tempo pra estacionar meu olhar em coisas pequenas. Uma nova vida traz consigo um novo sentido e propósito e isso tem me afetado positivamente. Bom, o racionalismo continua, porém mais adocicado (rsrs), enfim, sinto que essa estação vai trazer coisa boa pra esse blog, afinal, é primavera!

Estou postando esse texto na categoria Anna O. você deve saber porquê. Se você ainda não sabe o que essa mulher histérica representa hoje pra nós, dê uma pesquisada! Abraços a todos!

03
Ago
08

Oráculo

Períodos de bruscas mudanças podem nos transformar em receptores abertos para os oráculos. Apesar de que os da vida real são bem diferentes dos do cinema. No filme o cara chega a se arriscar para encontrá-lo, na vida real ele vem atrás da gente, cheios de palpites e falsas soluções pros nossos problemas. Definitivamente não sou uma pessoa de “oráculos”, que parte em busca de conselhos etc. Uns consideram isso arrogância, outros ceticismo, eu considero isso prudência, porque hoje uma grande parte das pessoas estão muito emocionalmente envolvidas com sua própria visão de mundo, o que os torna exessivamente parciais, e isso é um perigo pra quem busca conselhos, pois podem te dar uma receita que não se encaixe com sua doença. O que vale então nesse momento é ouvir a intuição, se você já tiver conquistado essa imparcialidade até com você mesmo. Porque a tendência é o seu eu sempre te apresentar a você mesmo como uma vítima. LOgo vale a pena ouvir mais Quem realmente sabe das coisas. Quanto aos oráculos da vida real, é fácil identificá-los, eles fingem querer te ouvir, porém já tem todo um arsenal de opiniões pra despejar sobre você. Bom, mais tem gente que gosta disso né, fazêr o quê. O bom mesmo é sempre pesar os interesses, pois na maioria das vezes eles estão lá, é só ser um pouco realista pra perceber. Então, olho aberto com eles…

07
Jul
08

O Caminho do espelho

Nada como se olhar no espelho, digo lliteralmente. Analisar cuidadosamente o eu buscando o auto conhecimento. Nos dias que vivemos nunca foi tão fácil evitar esse encontro. Há tanto em nossa volta e tantos precisam de nós que é conveniente se utilizar do convite de “amar ao próximo”, para fugir de nós mesmos. Considero que o auto-conhecimento é um caminho sem atalhos, um caminho solitário e longo. A mais de um ano tenho andado nesse caminho que dei o nome de “caminho do espelho”; revendo conceitos, refazendo opiniões, mais ou menos como a “refazenda” de Gilberto Gil. A vida se acelera quando se está nesse caminho, os acontecimentos são mais intensos, talvez você se torne mais chato, mais consciente, mais introspectivo, e talvez muitos estranhem isso. Uns vão pensar que é amargura, outros que é a idade…enfim…o que importa mesmo é que tudo, exatamente tudo, contribui pra que seu tempo nessa estrada seja pleno. É fácil perceber quem tirou o pé dessa estrada, ou tem evitado andar nesse caminho. Geralmente essas pessoas se ocupam de muitas coisas relacionado a outros como fuga de si mesmo. Se envolve de maneira desiquilibrada nos problemas dos outros, pra não ter tempo de olhar pros seus. Observa e lê os erros dos outros, pois não suporta olhar pros seus. Está sempre correndo de um lado pro outro, sempre cansado, pois o caminho da fuga é muito mais cansativo que o caminho do espelho. o caminho do espelho amadurece, o da fuga calcifica. O caminho do espelho questiona seus relacionamentos, o da fuga fortalece o egocentrismo. No caminho do espelho há desenvolvimento, enquanto a fuga atrofia. Diante do espelho você pode se tornar grande pra si mesmo, em fuga você continua buscando a aceitação dos outros. No caminho do espelho você aprende a apreciar a solidão quando esta é necessária, no da fuga você vai até barganhar a companhia de alguém. Logo, talvez o caminho do espelho seja sua melhor escolha pro que resta desse 2008.

30
Jun
08

Sobrevivência x Resiliência

Já está mais que comprovado que o que determina o sucesso ou fracasso de alguém, é o seu nível de resiliência, ou seja, sua capacidade de ir de um extremo a outro de seus limites, como se fosse um elástico, sem se romper. Neste contexto, quero destacar algumas coisas que podem distorcer nossa visão sobre resiliência, que seriam nossos parâmetros sobre sucesso e fracasso. Sucesso pra muitos talvez seja obter sucessivas conquistas pessoais, e fracasso pra outros talvez seja não superar dificuldades cotidianas ou financeiras, porém não é essa a balança da resiliência, é exatamente o oposto disso. Ser uma pessoa resiliente é não sucumbir diante de tais e muitas outras pressões, é não se curvar ante as circunstâncias nem ao menos ser direcionado por elas. É não deixar que acontecimentos modelem sua identidade, antes, estes servirão como instrumentos de ajuste que fortalecerão sua missão e propósito de vida. Os resilientes não são apenas sobreviventes. Sobrevivente qualquer um pode ser, mas o resiliente não vive à sombra da vitimização, não culpa circunstâncias, nem se alimenta de amargura. O sobrevivente somente, lamenta o passado, o resiliente se projeta pro futuro sempre e sempre. O sobrevivente somente, se dá por satisfeito por ter vencido, o resiliente coleciona desafios superados e nunca se sente derrotado a ponto de não desejar que os próximos desafios surjam. Enfim, ser resiliente é confiar em si mesmo sempre, e nunca permitir que a vida defina quem ele é, ele já sabe, e tudo o mais só tem a contribuir com isso.

23
Jun
08

Será o Apartheid brasileiro???

 Talvez você leia este meu post e considere um exagero (opção sua), mas o que tenho percebido nos últimos acontecimentos gospel em nosso país, parecem mais uma versão “brasileirada” do aparthaid da África do Sul. Um grupo no Recife ora pra acabar a festa junina, e um líder do movimento da festa na região morre (segundo eles como resposta do clamor), o mesmo grupo atribui às preces a vitória de um time no campeonato brasileiro (atribuíndo a tal vitória ao fato de os jogadores serem todos “muito crentes” (como comentou a escritora do artigo). Mas minha crítica não é somente direcionada a quem articula tais eventos, mas é sobre esse movimento em massa de exclusão e separação, que apresenta um deus que barganha a devoção, que tem seus “preferidos”, seu grupo que ele de bom grado abençoa e outro que ele deliberadamente ignora por causa de seus tais “pecados”. Esses movimentos gospel para grupos fechados (ainda que sejam eventos abertos), que se move no “espiritual” e julga de maneira “aberrantemente ignorante” os costumes regionais de nossa terra, colocando todo mundo “dentro de um saco” sem sequer saber no mínimo quantas famílias se mantém através desses movimentos, ou pior ainda, sem apresentar nenhuma proposta relevante às pessoas. Tudo é sublime demais, espiritual demais, tão irreal que confunde, enlouquece e mata quem tentar entender de maneira lógica tais procedimentos. Concordo que toda cultura tem seus pontos de desajuste que precisam se alinhar, mas jamais que essa seja a questão a ser combatida em prol das tais “conquistas e vitórias” que esses movimentos  se dizem promover. Na África do Sul, eram (e em muito ainda são) pretos e brancos, aqui, o que se vê são “crentes e não crentes”. Você julga aí quem representa quem (e é óbvio quem fica no lugar de quem). Então você pode pensar, mas aqui ninguém mata ninguém, ninguém quer exterminar ninguém. Mas vale lembrar que matar não é só atirar, ou esfaquear, é também subjugar, tentar calar a expressão de um povo, sua cultura e diversidade, seu direito de se manisfestar e formar opiniões, tudo isso mata e anula. Se você pensar um pouco mais profundamente, vai ver que eu não fui tão exagerada assim em me lembrar do Apartheid diante desse episódio essa semana…